Mania de Entender

sábado, 1 de novembro de 2008

Deus, os periquitos e o gato

Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que aves? - Mateus 6:26

Nesta noite eu perdi o sono. Coisa muito rara. Costumo até dizer que enquanto muitas pessoas perdem o sono, eu costumo achar todo o sono que foi perdido. Mas um fato interessante atraiu minha atenção agora às 03:25h desta madrugada. Ao chegar na sala ouvi barulho do lado de fora da casa. Era um barulho forte e de certa forma violento. Foi quando acendi a luz externa e constatei uma tentativa de invasão. Não a invasão do meu lar, mas a invasão da gaiola onde habitam três periquitos de minha filha. Acendi a luz na hora certa. O maldito gato ali estava a olhar para mim no momento em que eu fiz um grande barulho ao bater na porta e, assim, ele fugiu. Creio que os periquitos suspiraram aliviados.

Como eu tenho esta inquietante mania de pensar, não pude deixar de refletir sobre o fato. Lembrei-me do texto supra em que Mateus registra o cuidado de Deus com as aves. Não fui acordado para orar. Não fui acordado para interceder. Fui acordado para salvar. Fui um instrumento de Deus para o livramento de pequenas criaturas as quais ele também ama. E daí tirei lições interessantes que gostaria de compartilhar com você.

Pra começar, pensei no gato. O gato era aquele que seguia seus instintos naturais. Vinha na calada da noite, sorrateiramente, acreditando não estar sendo visto; única e exclusivamente para se satisfazer. Mais precisamente, tocando em algo que não lhe pertencia. E não é interessante como nós seres humanos também agimos assim? Sinceramente, não posso aceitar a idéia Freudiana de que somos simples bonecos indefensáveis com relação a tirania de nosso subconsciente. Não, isso não é verdade. Isso apenas tenta nos aliviar a consciência e fazer-nos não assumir os erros que cometemos. Antes, fico com a Bíblia sagrada que me ensina que temos uma natureza decaída que diuturnamente nos tenta para o mal. Daí fazemos a escolha e assumimos as conseqüências. E a vida te me mostrado isto. Como a mesma atitude do gato, vejo pessoas que agem na calada da noite, sorrateiramente, quando ninguém está vendo. Pessoas que se reúnem secretamente para tramar arapucas financeiras que visam arrebatar dinheiro dos cofres públicos. Vejo pessoas que entram na Internet para se afundar na lama da pornografia ou se relacionar de forma vergonhosa com pessoas que pouco conhece. Vejo alunos que compram monografias e mentem discaradamente ao assinarem sua autoria. Vejo pessoas que escondem o troco recebido a maior, que marcam suas residências com o vergonhoso e imoral fio da antena clandestina de tv a cabo. Vejo ladrões de luz elétrica através do, curiosamente, também chamado gato. Vejo estas e muitas coisas. Coisas que não gostaria de ver mas que fazem questão de serem vistas. Coisas que surgem na “calada da noite”, nas altas madrugadas existenciais. E uma coisa interessante é que existem pessoas que, como aquele gato, acreditam que conseguirão seus objetivos finais sem nunca serem surpreendidos. Acreditam que a luz nunca chegará. E que nunca haverá um “barulho assustador”. E falando apenas do meu Brasil, fico pasmo em constatar como esta ridícula fé em Deus que o brasileiro se orgulha dizer que tem é tão destituída de temor. Dizem que crêem mas de fato não temem. Realmente se enganam em achar que Deus seja tão idiota, com o perdão do termo, para se deixar ser afrontado ‘Ad eternum’ sem nunca exercer justiça. Pobres mortais. Acreditam realmente que a infração da justiça divina não acarreta em danos. Foi o profeta Isaías que disse que maldito é o homem que chama o mal de bem e o bem de mal. Sim, este é maldito segundo Deus. É maldito por carregar sobre si um fardo. Um fardo pesado de culpa, vergonha, medo e intranqüilidade. Uma vida marcada, uma história manchada, uma acusação contínua. Creio que um dos maiores incômodos que existe é não viver em paz com sua própria consciência. Consciência esta que o apóstolo Paulo afirma ser as leis de Deus impressas no coração humano. Sim, consciência que persegue, que acusa e não dá descanso ao infrator. Consciência que revela incessantemente a vergonha, que reduz a alto estima e que oprime a alma.

Por outro lado vejo agora os periquitos. Ali indefesos e expostos. E nestes, vejo os oprimidos. Pessoas sem perspectiva porque a vida lhes impôs limites. Pessoas a mercê daqueles que, se achando livres, tramam fazer o mal. Para esses não lhes resta muita coisa a não ser contar com o amor de alguém. Alguém que lhes alimenta, que lhes dá abrigo e que lhes protege das intempéries e adversidades desta vida. Aos periquitos da minha casa não lhes resta o ônus da escolha. São simplesmente alvos do amor da minha família. E às vezes me pergunto porque é que Deus não faz assim conosco. Porque Ele simplesmente não despreza nossa estupidez e nos faz amá-lo? Mas acho que a resposta está justamente na diferença entre nós e os periquitos. Nós possuímos a volição, a intelecção e a capacidade de amar. Não amamos por obrigação, amamos por escolha. Capacidade esta que os teólogos denominam graça, que nunca teríamos se o próprio Deus não nos tivesse dado. Sim, Deus não nos obriga a amá-lo e obedecê-lo, mas curiosamente nos faz prisioneiros do seu amor. E posso dizer isto com certeza e tranqüilidade. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho único para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”. E é esta tal maneira que me espanta, porque ela revela que Deus me ama ainda que eu não o e ainda que eu não me ame. Que ele cuida de mim ainda que eu mesmo seja relapso com minha vida. Mas que diferença existe então na vida daqueles que decidem retribuir este amor através do compromisso com ele e também das atitudes? Eu respondo de uma forma muito simples: Esses deixam de ser gatos, para voluntariamente serem periquitos. É isso mesmo, e eu explico.

Sendo gato escolho agir sorrateiramente sendo o canal do mal para a vida de outros. Sendo periquito, sou o alvo consciente do amor do meu dono e, por isso o meu canto (minhas ações), trazem alegria ao meu dono e às pessoas ao meu redor.

Sendo gato vivo a intranqüilidade de poder ser supreendido a qualquer momento por aquele que exporá as minhas vergonhas e me manterá com as necessidades não supridas.

Sendo periquito, vivo a tranqüilidade de saber que ainda que o mal esteja me rondando, existe alguém por mim, e que na hora exata não me deixará ser tragado pelo inimigo.

Sendo gato, me engano em acreditar que sou livre, quando na realidade sou escravo de mim mesmo.

Sendo periquito, ainda que os outros me achem prisioneiro, tenho a certeza e a alegria de ser livre porque o amor do meu dono me satisfaz completamente e revela que minha vida é importante para ele.

E é justamente por isso que decidi ser “como um periquito”, que decidi ser cristão. Decidi ser alvo do amor do meu dono e viver para ele descobrindo que nele reside a origem de toda a felicidade. Foi o pastor Ed René Kivitz que na introdução do seu livro ‘Outra espiritualidade’ certa vez disse:

Sendo cristão, enxergo a vida com outros olhos. Experimentei a metanóia, que chamam “arrependimento”, mas creio ser uma expansão de consciência (do grego meta = além e nous = mente). Vivo sob valores, imperativos, prioridades e propósitos diferenciados. Conhecer a Deus me faz andar na luz, na verdade, livre de pesos, culpas e máscaras, coma consciência e as intenções tão puras quanto um ser humano imperfeito as pode ter, e isso já basta para que minha vida dê um salto de qualidade imensurável.

Recebo subsídios de Deus no meu homem interior, pois sendo verdade que “tudo posso naquele que me fortalece”, aprendo a viver o contentamento em toda e qualquer situação. As promessas de Deus aos seus não dizem respeito ao conforto circunstancial ou à prosperidade aqui e agora, mas afetam a interioridade humana com, por exemplo, paz que excede o entendimento e alegria completa. Mais do que isso, a intimidade com Deus não torna a minha vida mais fácil, mas me faz mais humano, mais maduro, mais capaz de amar com a lucidez que escolhe as coisas mais excelentes e mais capaz de enfrentar com dignidade toda e qualquer situação.

E exatamente às cinco horas e dois minutos deste novo dia, descubro que Deus não me acordou só porque ele ama os periquitos, mas porque ele me ama e porque ele ama você. E ele decidiu me revelar estas coisas para que nunca nos esqueçamos de que ele sempre cuidará de nós.

Espero que minha experiência também tenha sido um canal do fluir de Deus em sua vida.

Um grande abraço e que Deus te abençoe

Um comentário:

rubenita disse...

obrigada pelo texto (mandei o agradecimento em seu e-mail, mas parece que vc não os abre!! rsrsrsrs). então reproduzo-o aqui:

"seu texto encheu meu coração e renovou minha fé... acorde outras vezes (rs!)... apenas para escrever!!"

outro abraço.
rubenita